Um mes em casa longe de casa

José Tafla · May 2, 2026

(Updated: Jun 16, 2026)

sao-paulo

Poucas sensações são melhores que a familiaridade. Sentir-se em casa, mesmo quando longe de casa, é inacreditável.

Minha sogra descansou

casal dançando nas nuvens

Não é a primeira vez que faço o trajeto direto do aeroporto para o cemitério. Cada uma dessas vezes teve a sua peculiaridade. Desta vez, vim com minha filha.

A viagem de Casper, no Wyoming, para qualquer lugar no mundo que não seja Denver é comprida. Só há voos diretos para Denver e, de lá, deve-se pegar uma conexão. Apesar de haver voos para diferentes destinos internacionais, São Paulo não é um deles. Quando foi hora de comprar a passagem, o mais conveniente foi United Airlines de Casper para Denver, Chicago, e São Paulo. Como eu queria vir com ela, peguei um voo de Phoenix para São Paulo com parada em Chicago.

Chicago

A chegada a Chicago, tanto a dela quanto a minha, foi sossegada. Para ela, obviamente, foi longa. Quem mandou morar longe? Mas tudo bem. Ainda deu tempo de comer um cachorro quente antes de embarcar. Afinal de contas, quem vai para Chicago e não come um cachorro quente, uma pizza, ou um sanduíche italiano de carne? O embarque para São Paulo também foi tranquilo.

Uma vez no avião, já fora do finger, estamos indo rumo à pista quando, de repente, o avião para e o comandante desliga os motores, anunciando que, devido à tempestade, o aeroporto fechou. Na minha TV estava vendo a movimentação segundo a torre e pude ver que todos os aviões estavam parados. Pela janela pude ver muita chuva caindo e várias luzes vermelhas acesas. Passados alguns minutos, o comandante avisa que seguimos sem perspectiva de decolagem. Aí eu apaguei.

Não tinha jeito de não me desligar. Já era tarde da noite, na véspera eu não havia dormido quase nada. o caminho todo até aí foi muito cansativo, então dormi mesmo! Esse atraso poderia comprometer nossa chegada. Era necessário que os filhos de minha sogra estivessem lá. Minha filha e eu, apesar de sermos família, não somos essenciais, por assim dizer. Por mais que eu quisesse estar no enterro para prestar minhas homenagens, a situação estava totalmente fora de meu controle. Portanto, vou relaxar.

Acordei pouco mais de uma hora depois com o avião em movimento. Na TV vi nosso avião chegando na pista e decolando. Finalmente estávamos a caminho. Considerando-se o atraso na partida com consequente atraso na chegada, afora o tempo de imigração e alfândega, aliado ao trânsito até o cemitério, provavelmente perderíamos o enterro. Paciência… Ficar nervoso não resolve. Quando estivéssemos livres, ligaria para minha esposa para saber da situação e determinar onde deveríamos ir.

São Paulo

Acordei faltando poucas horas para pousar. Internet a bordo do avião custa mas o serviço é gratuito para mensagens. Vim a saber que o voo do meu cunhado que mora na Florida também atrasou. Estimo que tenhamos nos desencontrado no aeroporto por pouco mais de uma hora. Minha esposa disse que daria tempo de irmos ao cemitério. Estávamos todos de acordo que não adiantaria correr. Meu cunhado pegou muito trânsito na Marginal, portanto nós também passaríamos pelo mesmo.

Minha irmã e meu outro cunhado (o “Bacana”) estavam nos aguardando. Já nos esperando no carro havia Guaraná e pão de queijo, duas das iguarias que mais sentimos falta nos Estados Unidos.

O enterro só seria à tarde. De acordo com o judaismo, o mes de Nissan é festivo. É quando celebramos o Pessach (Páscoa judaica), relembrando a saída de nossos antepassados da escravidão no Egito. Uma consequência é que os cemitérios judaicos estão fechados à visitação, mas enterros prosseguem normalmente.

Havia bastante gente no cemitério, muitos que eu não via fazia muito tempo. Pude colocar muitas conversas em dia.

Na hora marcada, começa a cerimônia, um momento muito difícil. É aí que o peso do momento cai sobre nós. A prédica do rabino foi muito bonita, exaltando a memória abençoada de minha sogra, seu reencontro com meu sogro, a presença de filhos, sobrinhos, netos…

“Não quero dar trabalho”

Se há uma coisa que minha sogra sempre odiou, ao longo de sua vida, foi dar trabalho. Na hora da refeição, ela me proibia de colocar as coisas na mesa e de retirá-las. Para minha sorte, a cozinha dela tem duas portas; enquanto ela vem por uma, eu vou pela outra, trazendo ou levando. Sabia que vinha bronca mas vou ajudar de qualquer forma.

Ela nos deixou pouco antes do Pessach. Por causa disso, a Shiva (luto oficial) foi reduzida de sete dias para apenas um e meio. Pelo mesmo motivo, o Shloshim (fim do luto estendido), que normalmente seria daí a 30 dias, foi suspenso. Tanto ela não quis dar trabalho que até nisso ela satisfez sua vontade.

Com certeza ela deu um toque especial em muitas outras coisas. Alguns exemplos:

  • É tradição, na primeira noite de Pessach, ter um Seder, que é um jantar familiar com comidas típicas no qual relembramos a saída do Egito. Desde que saímos do Brasil, nunca mais tivemos um Seder familiar. Ou foi com poucos parentes, amigos, pessoal da sinagoga, ou sozinhos. Desta vez, estávamos todos juntos.
  • Celebrei meu aniversário com toda a família.
  • Meu cunhado que mora na Florida também.

Não é de bom alvitre ir direto da sinagoga para casa. É importante fazer uma parada, não importa onde, seja um café, supermercado, farmácia, o que quiser. Só não pode ir para casa direto. Paramos todos numa padoca, onde pude deliciar mais uma iguaria: coxinha de frango com Catupiry.

O cansaço é grande, a necessidade de um bom banho é muita, mas passar tempo com a família, apesar das circunstâncias, é primordial.

Envelhecimento

Muitos de nós vamos passar por isso. Envelhecer faz parte da vida.

Mas como seria bom se, no fim do caminho, o sofrimento fosse menor!

Minha mãe não envelheceu. Ela se foi muito cedo. De fato, ela era apenas 3 anos mais velha do que eu sou agora. É assustador!

Meu pai sofreu vários anos depois que minha mãe nos deixou. Felizmente, ele já havia decidido vender o carro e parar de dirigir. Ele sabia que um dia iria começar a confundir os pedais, ou que se perderia dando a volta no quarteirão. Para ele, que trabalhava em finanças, foi muito fácil descobrir que o carro era um custo desnecessário. Isso para não falar que o trânsito em São Paulo estava ficando cada vez mais caótico e perigoso. Ainda assim, a perda das liberdades lhe foi muito onerosa. Ele caía e não conseguia se levantar. Foi preciso alguém para acompanhá-lo até para ir ao banheiro.

Tenho ainda inúmeros exemplos, seja na família, seja pais de amigos, seja colegas da sinagoga. Gente que perdeu a independência. Gente que precisa de ajuda para se locomover. Gente que quer ir para tal lugar mas que mal consegue sair da cadeira; sem transporte nem acompanhante, nem sair de casa vai. Gente que lhe confiscaram a carta de motorista, a chave do carro, até mesmo a chave de casa. Gente que ficou confinada a uma cama de hospital.

33 em cada perna

Eu brinco com a minha idade. Tenho 33 anos (em cada perna). Minha filha é tantos anos mais velha do que eu. Há um ditado africano que diz que o relógio sempre sabe que horas são. Não adianta eu brincar. Não adianta eu querer esconder a minha idade. Sim, eu me sinto jovem… mas meu corpo discorda. Lembro-me com detalhes de coisas que aconteceram faz muitos anos… mas não lembro de algo que minha esposa acabou de dizer.

Quero usar essas lições e observações para saber que, um dia, vou precisar de ajuda, e quero, principalmente, que essas pessoas que me ajudarem saibam o quanto aprecio e agradeço seu empenho. Passei por uma situação semelhante alguns anos atrás, quando fui internado num hospital em estado crítico. Eu não podia levantar da cama e tive que fazer minhas necessidades deitado, para então vir a enfermeira me limpar. Era humilhante para ela e para mim.

Quer saber? Até lá, quero mais é aproveitar a vida.

Já disseram que você só vive uma vez. Discordo veementemente! Você morre uma vez. Você vive todos os dias. Acho que vi isso numa tirinha do Calvin e Hobbes.

Um mes em São Paulo

São Paulo

Nada se compara a voltar a um lugar que não mudou para perceber o quanto mudamos.

– autor desconhecido

Uma vez perguntaram para o Cebolinha se ele come acelga. Ele respondeu que come a celga, a sulda, a mulda, e a palaplélgica. Brasileiro consegue entender a piada.

São Paulo é a minha cidade. Foi aqui que nasci, cresci, e vivi a maior parte de minha vida.

Há lugares, entretanto, que não quero saber de visitar porque eles só existem em minhas memórias. A casa onde nasci, assim como as escolas que frequentei, inclusive a sinagoga do bairro, que fora fundada pelo meu avô, foram todas demolidas para construir prédios. Já a casa de minha juventude segue de pé, mas agora faz parte de uma rede de serviços. Sou usuário desses serviços mas, quando preciso, vou a outras localidades. Não quero entrar nessa casa para ver que meu quarto já não é meu quarto. Não quero ver o escritório onde meu pai ouvia música clássica, o que despertou em mim o interesse, pois já não é seu escritório. Quanto ao quarto dos meus pais, onde eles escondiam “O Último Tango em Paris” para que eu não o lesse, mas que ainda assim li, provavelmente foi dividido em várias salas. Que dizer, então, do salão de festas, onde amigos do meu pai vinham jogar bilhar na sexta à noite e sempre me davam uma gorjeta por ter abastecido a geladeira com cerveja e gelo, afora o uísque e amendoim na mesinha?

Sim, meu pai me ensinou a gostar de música clássica, mas foi minha mãe que me ensinou a ouvir. Não basta tocar: é preciso escolher, mas antes de escolher há que se saber a história do compositor e da peça. Foi assim que soube que a Valse Triste de Jean Sibelius não é uma peça triste. Já a Sinfonia n.° 6 (Pathétique) de Tchaikovski era um tabu, que só fui entender mais tarde.

De fato, demorei muitos anos antes de voltar a ouvir a “Valse Triste”.

Violência

São Paulo é uma cidade grande e, portanto, violenta. Ou, ao menos, com muitos lugares a serem evitados. Pergunto-me qual cidade grande no mundo é diferente.

Phoenix, onde moro, também é uma cidade grande mas, por ser espalhada, a incidência de violência é bem localizada. Os noticiários fazem questão de achar algum caso e fazer alarde. Notícia boa não vende anúncio. Quer saber? Todas as cidades por onde passei e morei são iguais. São Paulo também. Achei engraçado que esses noticiários sangrentos falam muito do perigo no Rio de Janeiro; falando com um amigo carioca, ele disse que sua família ficou muito assustada quando ele disse que vinha para São Paulo (pois a situação é insustentável). Só rindo mesmo.

A propósito: coloque uma toalhinha embaixo da televisão para não manchar o chão de sangue.

Certas coisas, entretanto, dão medo. Andar de noite nas ruas é uma delas. Ficar parado no trânsito também. Deixar o celular à vista? Nem pensar! A carteira fica no bolso da frente, e ainda assim só com trocado e documento de identidade.

Arte urbana

As paredes da cidade são meras telas para o grafiteiro colocar sua mensagem. Muitos se limitam a rabiscar, mas outros fazem desenhos maravilhosos. O trabalho desses vale a pena ser visto. O bom é que existe um código de ética entre os grafiteiros que um não pode estragar o trabalho de outro, se não as conseqüências são graves.

Lembro-me que uma vez chamaram um grafiteiro para pintar um mural. Sua arte urbana era tão bonita que quiseram replicá-la em outro lugar. Quando foi entrevistado pelo noticiário, ele disse que o que ele estava fazendo não o representava. Sua verdadeira arte está nas ruas.

No Mackenzie, onde estudei, contava-se a piada que, um dia, os muros externos iriam atravessar a calçada e invadir a rua. Isso porque, quando alguém grafitava, eles não limpavam, mas pintavam em cima.

Gastronomia

gastronomia

Não sei por que. Passei na feira, quitanda, supermercado, onde comprei frutas e verduras. Como as frutas eram gostosas! Maçã, pera, manga, banana, uva, tudo era mais gostoso! Pepino e tomate com sabor! Como é possível? Esqueci como era bom… Voltando para casa, tive que me acostumar novamente com o sabor americano. Ou falta de.

Restaurantes, então, nem se fala. A variedade de comida é incrível! Que dizer, então, do gosto?

Mas há mais variedade. Pode-se comer picanha na praça de alimentação do Shopping. O pastel da feira continua único. O varejão do CEAGESP não apenas tem pastel, como também sanduíches, comida japonesa, doces, garapa, feira livre, música ao vivo, e mesa atrás de mesa para as pessoas se sentarem e curtirem.

varejão do CEAGESP

Religião

Meu reencontro com o judaismo em São Paulo foi mais que especial. Começo com uma tradução livre:1

Religiões são como idiomas.

Nenhum idioma é verdadeiro ou falso. Todas os idiomas são de origem humana. Cada idioma reflete e molda a civilização que o fala. Existem coisas que você pode dizer em um idioma que você não pode, ou ao menos não consegue dizer tão bem, em outro idioma.

E quanto mais idiomas você falar, mais sutil se torna sua compreensão da vida.

– Rami Shapiro

Seguindo a mesma linha de raciocínio, acrescento dizendo que dentro do judaismo temos vários sotaques.

Daqui a pouco conto mais a respeito.


Revision history

  1. 2026-05-02: Versão original
  2. 2026-06-16: Um mes em São Paulo

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