Um mes em casa longe de casa

José Tafla · May 2, 2026

sao-paulo

Poucas sensações são melhores que a familiaridade. Sentir-se em casa, mesmo quando longe de casa, é inacreditável.

Minha sogra descansou

Não é a primeira vez que faço o trajeto direto do aeroporto para o cemitério. Cada uma dessas vezes teve a sua peculiaridade. Desta vez, vim com minha filha.

A viagem de Casper, no Wyoming, para qualquer lugar no mundo que não seja Denver é comprida. Só há voos diretos para Denver e, de lá, deve-se pegar uma conexão. Apesar de haver voos para diferentes destinos internacionais, São Paulo não é um deles. Quando foi hora de comprar a passagem, o mais conveniente foi United Airlines de Casper para Denver, Chicago, e São Paulo. Como eu queria vir com ela, peguei um voo de Phoenix para São Paulo com parada em Chicago.

Chicago

A chegada a Chicago, tanto a dela quanto a minha, foi sossegada. Para ela, obviamente, foi longa. Quem mandou morar longe? Mas tudo bem. Ainda deu tempo de comer um cachorro quente antes de embarcar. Afinal de contas, quem vai para Chicago e não come um cachorro quente, uma pizza, ou um sanduíche italiano de carne? O embarque para São Paulo também foi tranquilo.

Uma vez no avião, já fora do finger, estamos indo rumo à pista quando, de repente, o avião para e o comandante desliga os motores, anunciando que, devido à tempestade, o aeroporto fechou. Na minha TV estava vendo a movimentação segundo a torre e pude ver que todos os aviões estavam parados. Pela janela pude ver muita chuva caindo e várias luzes vermelhas acesas. Passados alguns minutos, o comandante avisa que seguimos sem perspectiva de decolagem. Aí eu apaguei.

Não tinha jeito de não me desligar. Já era tarde da noite, na véspera eu não havia dormido quase nada. o caminho todo até aí foi muito cansativo, então dormi mesmo! Esse atraso poderia comprometer nossa chegada. Era necessário que os filhos de minha sogra estivessem lá. Minha filha e eu, apesar de sermos família, não somos essenciais, por assim dizer. Por mais que eu quisesse estar no enterro para prestar minhas homenagens, a situação estava totalmente fora de meu controle. Portanto, vou relaxar.

Acordei pouco mais de uma hora depois com o avião em movimento. Na TV vi nosso avião chegando na pista e decolando. Finalmente estávamos a caminho. Considerando-se o atraso na partida com consequente atraso na chegada, afora o tempo de imigração e alfândega, aliado ao trânsito até o cemitério, provavelmente perderíamos o enterro. Paciência… Ficar nervoso não resolve. Quando estivéssemos livres, ligaria para minha esposa para saber da situação e determinar onde deveríamos ir.

São Paulo

Acordei faltando poucas horas para pousar. Internet a bordo do avião custa mas o serviço é gratuito para mensagens. Vim a saber que o voo do meu cunhado que mora na Florida também atrasou. Estimo que tenhamos nos desencontrado no aeroporto por pouco mais de uma hora. Minha esposa disse que daria tempo de irmos ao cemitério. Estávamos todos de acordo que não adiantaria correr. Meu cunhado pegou muito trânsito na Marginal, portanto nós também passaríamos pelo mesmo.

Minha irmã e meu outro cunhado (o “Bacana”) estavam nos aguardando. Já nos esperando no carro havia Guaraná e pão de queijo, duas das iguarias que mais sentimos falta nos Estados Unidos.

O enterro só seria à tarde. De acordo com o judaismo, o mes de Nissan é festivo. É quando celebramos o Pessach (Páscoa judaica), relembrando a saída de nossos antepassados da escravidão no Egito. Uma consequência é que os cemitérios judaicos estão fechados à visitação, mas enterros prosseguem normalmente.

Havia bastante gente no cemitério, muitos que eu não via fazia muito tempo. Pude colocar muitas conversas em dia.

Na hora marcada, começa a cerimônia, um momento muito difícil. É aí que o peso do momento cai sobre nós. A prédica do rabino foi muito bonita, exaltando a memória abençoada de minha sogra, seu reencontro com meu sogro, a presença de filhos, sobrinhos, netos…

“Não quero dar trabalho”

Se há uma coisa que minha sogra sempre odiou, ao longo de sua vida, foi dar trabalho. Na hora da refeição, ela me proibia de colocar as coisas na mesa e de retirá-las. Para minha sorte, a cozinha dela tem duas portas; enquanto ela vem por uma, eu vou pela outra, trazendo ou levando. Sabia que vinha bronca mas vou ajudar de qualquer forma.

Ela nos deixou pouco antes do Pessach. Por causa disso, a Shiva (luto oficial) foi reduzida de sete dias para apenas um e meio. Pelo mesmo motivo, o Shloshim (fim do luto estendido), que normalmente seria daí a 30 dias, foi suspenso. Tanto ela não quis dar trabalho que até nisso ela satisfez sua vontade.

Com certeza ela deu um toque especial em muitas outras coisas. Alguns exemplos:

  • É tradição, na primeira noite de Pessach, ter um Seder, que é um jantar familiar com comidas típicas no qual relembramos a saída do Egito. Desde que saímos do Brasil, nunca mais tivemos um Seder familiar. Ou foi com poucos parentes, amigos, pessoal da sinagoga, ou sozinhos. Desta vez, estávamos todos juntos.
  • Celebrei meu aniversário com toda a família.
  • Meu cunhado que mora na Florida também.

Não é de bom alvitre ir direto da sinagoga para casa. É importante fazer uma parada, não importa onde, seja um café, supermercado, farmácia, o que quiser. Só não pode ir para casa direto. Paramos todos numa padoca, onde pude deliciar mais uma iguaria: coxinha de frango com Catupiry.

O cansaço é grande, a necessidade de um bom banho é muita, mas passar tempo com a família, apesar das circunstâncias, é primordial.

Religião

Meu reencontro com o judaismo em São Paulo foi mais que especial. Daqui a pouco conto mais a respeito.

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